O mito narra uma história sagrada, quer dizer um acontecimento primitivo que teve lugar no começo dos tempos e cujos personagens são os deuses ou os heróis civilizadores. Daí que o mito fundamente a verdade absoluta. E daí também que, ao revelar como uma realidade acessou ao ser, o mito constitua o modelo exemplar não só dos ritos, mas também de toda atividade humana significativa: alimentação, sexualidade, trabalho, educação… Logo, em seus gestos cotidianos, o homem imitará aos deuses, repetirá suas ações. Frequentemente, pus o exemplo de uma tribo de Nova Guiné, em que um só mito serve de modelo à todas as atividades referentes à navegação, da construção de uma barco e os tabus sexuais que leva consigo até os gestos da pesca e os itinerários dos navegantes. O pescador, ao executar o gesto ritual, não implora a ajuda do deus, mas sim imita-lhe, identifica-se com o deus… Mas ainda fica por ver e, mais ainda, por entender o valor existencial do mito. O mito acalma a ansiedade, faz o homem sentir-se seguro. O polinésio que se arrisca no mar o faz sem temor algum, posto que se sente seguro, mas a condição de repetir exatamente os gestos do antepassado ou do deus. Seu êxito está incluído na ordem das coisas. Esta confiança é realmente uma das forças que permitiram sobreviver o homem. (Mircea Eliade)
Os mitos apresentam-se como transposições dramatúrgicas desses arquétipos, esquemas e símbolos, ou como composições de conjunto, epopeias, narrativas, gêneses, cosmogonias, teogonias, gigantomaquias, que já começam a deixar entrever um processo de racionalização. Mircea Eliade vê no mito o modelo arquetípico para todas as criações, seja qual for o plano no qual elas se desenrolam: biológico, psicológico, espiritual. A função mestra do mito é a de fixar os modelos exemplares de todas as ações humanas significativas. O mito aparecerá como um teatro simbólico de lutas interiores e exteriores a que o homem se entrega no caminho de sua evolução, na conquista de sua personalidade. (DS)
Assim, as tendências reveladas pelos mitos são modelos presentes no cenário de todo espetáculo, da mesma forma que uma memória ancestral já esquecida até mesmo daqueles que nela reiteram. Toda atividade humana essencial e que responde a necessidades torna-se dessa forma temática e iterativa. O mito se apresenta como um exemplo lógico de ação, de paixão ou de espiritualidade, cujos objetivos visados permitem distinguir as três vias de realização metafísica que são a ação, o amor e o conhecimento.
Excerto de Excerto de FERREIRA DA SILVA, Vicente. Transcendência do Mundo. São Paulo: É Realizações, 2010, p. 105-106
A mitologia é a abertura de um regime de fascinação. Ela não pode ser compreendida, como querem muitos, a modo de qualquer criação imaginativa ex homo, ou como qualquer projeção psicológica da mente inconsciente da humanidade. Todo o complexo humano, consciente ou inconsciente, é descerrado simultaneamente com o descerrar-se da totalidade do ente, a partir das potências míticas originais. Os conteúdos do relato mítico e a cosmografia revelada nesse saber remetem-nos às coisas mesmas, instalando-nos num mundo de presenças reais e imperiosas. A configuração das coisas presentes nesse cosmos é esboçada e estilizada pelo projeto-fascinante, que faz com que ela se alteie em sua identidade intramundana própria. Todas as coisas são coisas míticas. A presença e a manifestação das forças numinosas que desencadeiam o soerguer-se de um mundo constituem mais do que um mero fenômeno da representação, isto é, algo para ser simplesmente visto ou intelectualmente considerado. A pesquisa filosófico-etnológica contemporânea demonstrou a íntima conexão entre o mito e o rito, em todos os povos conhecidos. As exigências do comportamento religioso se traduzem sempre na ação cultual, sendo o arrebatamento cultual o correlato necessário da ação proposta pelo mito. Essa ação proposta é um oco que pede o cumprimento da cena religiosa, encontrando nessa cena a confirmação constante de um regime de fascinação. O binômio mito-rito fecha um universo de conhecimento e de ação e desenha uma esfera crepuscular do aberrante e do hostil. Essa área iluminada, onde se desenrola a ação ritual, constitui sempre (105) um teatro mundanal completo, onde todas as coisas encontram sua inserção e significação peculiares. A função iluminante e fascinante que ergue esse cenário cósmico-patético pertence ao mito e somente ao mito, que não é mera palavra ou epos literário, mas sim presença real e efetiva dos deuses e da atuação divina. Essa presença, entretanto, não se realiza como a presença das coisas, não é uma representação ou noema suscetível de pura fruição intuitiva. Os deuses vivem a vida das polaridades, das forças conclamatórias e imperiosas, que arrastam, subjugam e dispõem. Cada figura numinosa corresponde a um ciclo atrativo-projetivo, que se propaga indefinidamente. Forma eônica do Sugestor, o modo de ser do divino e do conteúdo mítico é o da sugestão e do orientar-se pulsional. O complexo desses poderes numinosos e sagrados, revelado no relato mítico e através dele, não constitui contudo um sistema estático e harmonioso. A epifania de Deus, origem das possibilidades historiáveis, suscita um constante formigar de paixões e movimentos constantes. Não só o manifestar-se dos poderes numinosos vem acompanhado de uma tempestade de paixões, como também rege entre esses poderes relações conflituosas e eróticas. Os deuses, como entidades superiores, expandem em torno de si um campo atrativo-passional, sendo entretanto fascinados em seu modo particular de ser. São eles essências fascinantes-fascinadas. Quando falamos em essências, devemos precaver-nos de pensar o divino sob o modelo das entidades pontuais e substanciais. A principal dificuldade que até hoje pesou sobre as tentativas de aproximação filosóficas da esfera do sagrado deriva justamente da aplicação ao divino das categorias de identidade pessoal ou subjetividade substancial. O divino pode, de fato, não assumir a configuração da personalidade fechada e idêntica a si mesma, podendo manifestar-se como vida fluida e difusa que assume diversas formas e aspectos. Nesse caso, por vezes, os deuses tomam o aspecto de animais ou de plantas, são esses animais ou essas plantas, em sua existência processual e inapreensível. Assim, o Deus não é uma coisa, algo de indicável simplesmente, mas sim a série de suas hierofanias, que abrange o amplo espaço de sua fascinação. O mito, portanto, remete-nos a (106) uma conexão de fatos extramundanos que tem uma subsistência em si e por si, e da qual ele é um documento memorizador e uma revelação histórica. Essa vida original e prototípica dos deuses, em si e por si, é um processo primordial e fundante, que condiciona e institui o manifestado e que está à base de todas as possibilidades que emergem no horizonte do tempo. O império de uma certa conexão divina determina uma época mundial, uma fase do regime da Fascinação, um tempo passional. O tempo é o tempo de uma dominação. A dominação é a abertura do acontecer e, portanto, o despertar do desejo. No fundo, o suscitado pelo Ser, em seu papel de Sugestor, é um patrimônio de paixões e de tendências, é o estar-fora-de-si da paixão. Falar, entretanto, de tendências e de paixões, é designar ao mesmo tempo o desejável e apetecível, o teatro próprio de atuação do desejo. A instituição da paixão é simultânea à instituição do desejado pelo desejo. Em outras palavras, a intuição de um mundo é a contrafigura da intuição do mundo passional que dormita no agente humano. A interpretação da esfera total da apetecibilidade, isto é, do próprio mundo, é a leitura das possibilidades inerentes ao agente que pode ser o homem, mas que pode também ser uma realidade diversa do primeiro hominídeo. Não é o ente humano que traça ou abre a esfera total da apetecibilidade como quer o existencialismo vulgar. O homem não é o ente que des-vela e esboça o outro ente, mas é ele coprojetado no projetar-se do mundo, a partir da dimensão do Fascinator. O homem é instituído em si mesmo, a partir das sugestões lançadas pelo Ser. O poder destinante pertence essencialmente à revelação divina, que reveste o agente de sua configuração própria e estende em torno dele a circunstância de suas operações possíveis.