Mil e Uma Noites

Estórias – Mil e Uma Noites

Hugo Xavier

Um dos mais conceituados especialistas contemporâneos d’As Mil e Uma Noites, Aboubakr Chraïbi10, demonstra que estes textos, cuja fiabilidade histórica é, de resto, questionável, não podem constituir prova de que no século ix já existisse o livro d’As Mil e Uma Noites, nem que este tivesse sido uma tradução do persa. Em primeiro lugar, os vários testemunhos que se reportam aos séculos ix/x aludem a um tipo de histórias que se assemelha mais às fábulas ou aos exemplos morais, sendo o livro Hazār Afsānah comparado a Calila e Dimna, um livro de fábulas morais que alegadamente terá sido traduzido do persa por Ibn Almufaqqaa, e que é frequentemente comparado às fábulas de La Fontaine. No entanto, os manuscritos d’As Mil e Uma Noites que chegaram até hoje, sendo o mais antigo do século XIV, não se caracterizam pela existência de fábulas morais com animais que falavam, um estilo de resto delas quase ausente, com algumas excepções esporádicas. Destas, as mais notáveis são precisamente as duas histórias contadas a Xerazade pelo seu pai, quando aquela lhe pede para ser oferecida em casamento ao rei Xariar, e a história do marido e do papagaio [que também consta do livro Sindbad, o Sábio]. Além destas, as histórias O Filho do Rei e a Ghula, O Invejoso e o Invejado, e O Sábio Dubane, não sendo fábulas, caracterizam-se por serem histórias relativamente curtas, cuja intenção é menos divertir o leitor através de coisas estranhas e espantosas – como é corrente n’As Mil e Uma Noites – e mais instruir moralmente. Esta meia dúzia de histórias talvez sejam as poucas que ficaram do que teriam sido As Mil Noites que fazemos remontar ao século ix. Por outro lado, não chegou aos dias de hoje nenhum fragmento, por mais curto que fosse, de um pretenso original persa.

Importante para perceber o contexto será referir que na época a que se reportam as citações e autores previamente mencionados houve um grande debate intelectual que opôs as tradições literárias árabes, baseadas na poesia e nos contos, e as persas, baseadas nas fábulas. Desse debate resultou uma síntese em que vários intelectuais persas adaptaram para árabe peças literárias de tradição persa, juntando-lhes poemas da tradição árabe. É neste quadro que surge a necessidade de atribuir uma origem persa às Noites, mesmo que eventualmente essa origem tenha sido forjada, fosse como forma de enaltecer as tradições persas e de dar autoridade ao texto em questão, fosse, pelo contrário, uma forma de renegar a baixa categoria literária que lhe atribuem os vários intelectuais árabes da época que lhe faziam referência, denunciando os elementos estrangeirados e menos nobres que caracterizariam as tradições persas face às árabes. Acreditar que As Noites são a tradução de um livro persa é, em termos comparativos, tão válido quanto acreditar que o pretenso manuscrito desaparecido que Umberto Eco usou para redigir O Nome da Rosa tenha existido realmente.

Assim, tudo leva a crer que nunca terá existido um original persa; tal como, e mais importante, o livro referido como sendo uma tradução do Hazār Afsānah seria muito diferente daquele que veio a ser As Mil e Uma Noites. A única certeza que se pode ter é a de que o quadro principal com um enredo que engloba as personagens Xerazade, Dinarzade, o rei e o vizir, já existia na época. Tudo o resto é uma incógnita. [Hugo Xavier, As Mil e Uma Noites]

R. Cansinos Assens

Malba Tahan